Crime digital, justiça off-line
June 14, 2008 by admin
Filed under Justiça, Tecnologia, internet
Reprodução matéria da Revista B2B Magazine
Por Paula Pereira
“Os criminosos de 2020 já nasceram digitais”, afirma Paulo Quintiliano, perito criminal da Polícia Federal, alertando para a urgência na atualização da legislação, mais adaptada à realidade digital que vivemos hoje. O perito abordou o tema durante o painel “Segurança: legislação e investigação apresentado no segundo dia do Ciab 2008, em São Paulo.
Segundo ele, não faltam entraves de atraso legal e regulatório que impactem nas investigações de crimes virtuais cada vez mais recorrentes e de toda a natureza, desde fraudes em pagamentos até movimentos xenofóbicos que o atual Código Penal já não dá conta de resolver por meio de analogia com crimes, digamos, analógicos. “Os criminosos estão se digitalizando. Perceberam que correm menos riscos e podem fazer transações mais interessantes com rapidez pela internet do que assaltos a bancos, por exemplo”, diz Quintiliano.
“Não temos ainda uma formatação de tipos penais para crimes cibernéticos. A tecnologia anda numa velocidade a frente do que é capaz de acompanhar a estrutura técnica do aparato estatal”, admite o óbvio o ministro da Justiça, Tarso Genro, que apesar fazer um certo meaculpa do governo, não deixou de partilhar a batata quente com provedores, usuários e gigantes de TI como Google e Microsoft, acusando as empresas de manterem seus servidores fora do País e pouco cooperarem com as solicitações da justiça brasileira nas investigações de crimes na web.
O que pode ser feito
Para lidar com esse e outros desafios que a justiça enfrenta para encontrar meliantes na rede, o ministro destacou o projeto de lei da Polícia Federal. “A proposta da Polícia Federal avança e chega a um patamar mínimo que precisamos para a segurança. Primeiro porque obriga os provedores nacionais, públicos e privados, a armazenar qualquer tipo de acesso durante três anos; admite a possibilidade de instalar a intercepção de tráfego por solicitação judicial e regula a adequação dos produtos as regras, evitando abusos”, diz.
Misturando as bolas, a boa nova que o ministro trouxe ao setor foi o andamento de uma lei federal que reorganiza a segurança privada (mais para agências, que de fato ambiente on-line).
O deputado federal Julio Semeghini, aproveitou a oportunidade para puxar a orelha do ministro pelo atraso de quatro anos do projeto de lei da PF na Câmara, que, segundo ele, avança agora, passando pelo Senado e devendo ser votada até o recesso, com data limite até o final do ano quando deverá ser sancionada pelo presidente Lula.
“O projeto não trata só de crimes em rede de computadores, mas é de vanguarda, contempla sistemas de comunicação em geral incluindo a telefonia móvel, meio pelo qual as transações bancárias devem ser maioria daqui para frente”, destaca Semeghini.
A lei começa a deixar claro o que é crime ou não na web, como por exemplo, o uso de redes wireless alheias, que muitos usuários inocentemente usam sem considerar crime, mesmo meio que por falta de controle tem sido usado para ações ilícitas mais graves como pedofilia e roubos financeiros.
A culpa da vulnerabilidade recai também para os usuários. “Eles não sabem quem acessa, não protegem os computadores, não fecham suas redes wireless, recebem centenas de e-mails com códigos maliciosos sem atenção, enfim, usam a internet com irresponsabilidade”, argumenta o advogado Renato Opice Blum.
Segundo ele, sem o senso de responsabilidade do usuário é questionável a queixa de invasões em internet banking, por exemplo, se esse mesmo cliente acessava o canal com o computador infectado por mais de cem cavalos de Tróia, como já houve caso julgado no Rio Grande do Sul, dando ganho de causa a instituição financeira.
Os problemas estão claros, basta saber se a justiça realmente conseguirá se adaptar e acompanhar a migração do crime para a web. Quintiliano apregoa o treinamento da PF para as ferramentas online, Genro ainda fala em convênios de cooperação internacional para desencorajar e localizar criminosos abrigados em “paraísos cibernéticos”, Blum quer a reeducação do usuário e Semeghini um aparato legal e regulatório que funcione. Todos terão de andar juntos para que se colha algum resultado. Enquanto isso o crime corre, no mesmo ritmo do avanço tecnológico.
