Contínuo Transitório, exposição de Waléria Américo
Contínuo Transitório, primeira exposição individual de Waléria Américo, busca lugar sensível para o corpo e a imagem, construindo um trânsito entre sensações e pensamentos
FORTALEZA, 30.05.2008 - Na próxima terça-feira, 3 de junho, às 20 horas, no Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza (rua Floriano Peixoto, 941 - Centro - fone: (85) 3464.3108), a artista plástica Waléria Américo abre sua primeira exposição individual, Contínuo Transitório. Antes, às 19 horas, haverá bate-papo com o curador da mostra, Moacir dos Anjos. Gratuita ao público, a mostra fica em cartaz até 20 de julho deste ano.
Em Contínuo Transitório, fotografias, gravuras, instalações e vídeos sugerem pequenas ações reais ou imaginárias que desestabilizam o olhar e tornam possível a construção de um trânsito entre sensações e pensamentos.
No trabalho Para ver o céu mudar de cor, série de cinco fotografias, a artista passeia sobre uma mureta no topo de um edifício, de onde é possível ver uma paisagem feita de prédios que, juntos, quase encobrem o horizonte.
No vídeo Mergulho na Paisagem, o ato de jogar pedras em um lago é encenado tantas vezes a ponto da ação perder sua função e se transformar em uma relação entre corpo e paisagem.
Em Contenção, Waléria caminha em linhas retas, sobe e desce os níveis distintos de um ambiente feito de pedras, negociando a sua permanência nesse lugar que da forma como é filmado pouco se pode saber.
Com micro-câmeras atadas no corpo, a artista percorre lugares da cidade, registra-os a partir dos seus movimentos e compartilha essas perspectivas fragmentadas em Mirar.
Por meio de objetos inventados, sem finalidade certa, como um trampolim inacessível (Ilusão, ou minutos antes) ou uma cadeira com altura pouco convencional (Suspensão), Waléria reafirma seu desejo de propor sentidos contextuais e fugidios.
“O trabalho da artista depende menos de características próprias da fotografia ou do vídeo (além de outros meios que eventualmente utiliza) e mais de sua disposição em empregá-los em sua estratégia de conhecer, sempre um pouco mais, a natureza do espaço onde ela e outros vivem”, afirma o curador da exposição, Moacir dos Anjos.
ENTREVISTAS E INFORMAÇÕES ADICIONAIS:
Waléria Américo (Artista) - (85) 8794.5820
Moacir dos Anjos (Curador) - (81) 9975.2962
Jacqueline Medeiros (Coordenadora de Artes Visuais do CCBNB) - (85) 8851.5548
Luciano Sá (assessor de imprensa do Centro Cultural Banco do Nordeste) - (85) 3464.3196 / 8736.9232 - lucianoms@bnb.gov.br
SERVIÇO:
Artista: Waléria Américo
Curador: Moacir dos Anjos
Local: Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza
Endereço: Rua Floriano Peixoto, 941 - Térreo - Centro
Período: de 03 de junho a 20 de julho de 2008
Abertura: terça, 03 de junho de 2008
19h - bate-papo com o curador Moacir dos Anjos
20h - abertura da exposição
Visitação: 4 de junho a 20 de julho de 2008
Terça a sábado, das 10h às 20h
Domingo, das 10h às 18h
Texto do curador Moacir dos Anjos, intitulado “Rumo a um lugar que não se conhece ainda”; e fotos da exposição.
Rumo a um lugar que não se conhece ainda
Acercar-se sensorialmente do mundo. Apreendê-lo no que possui de singular sem reduzi-lo a uma dimensão apenas. Investi-lo de humanidade a partir de sua exploração contínua. Não somente com a capacidade da visão, mas com todos os sentidos juntos, pois, como dizia Merleau-Ponty, “o mundo está à minha volta, não na minha frente”. É esse ímpeto de conhecimento múltiplo e inquieto que primeiro move o trabalho de Waléria Américo. É ele que a faz avançar rumo a um lugar que não se conhece ainda: um lugar que se constrói e se mostra no percurso mesmo em que é percorrido. A dúvida, portanto, é seu impulso maior para fundar o território simbólico que habita, e que ganha contornos mais definidos – embora sempre inconclusos – a cada novo trabalho que cria.
Em uma série de cinco fotografias, passeia sobre a mureta do que parece ser o topo de um edifício, de onde se vislumbra uma paisagem feita de muitos outros prédios que, juntos, quase encobrem o horizonte. O perigo de queda implícito na caminhada parece estar justificado na última das imagens mostradas, em que a artista alcança posição que a permite testemunhar o crepúsculo para além da barreira que os edifícios formam, bem como no título-motivo dado ao trabalho: Para ver o céu mudar de cor. Já no vídeo Mergulho na Paisagem, o ato de jogar pedras em um lago é reencenado por vezes a fio sem outro fim que não seja o de desfazê-lo de uma utilidade conhecida, exceto a de conhecer com o corpo o cenário em que o mesmo está inscrito.
É dessa disposição para subverter o familiar que se tece, em conteúdo e em forma unidos como uma coisa apenas, a ainda curta e já madura trajetória de Waléria Américo. Trajetória na qual se afirma uma inquietude com os modos de habitar fisicamente o mundo e onde transparece uma inadequação do corpo às coordenadas espaciais empregadas na vida comum, com as quais se definem os lugares de repouso e trânsito. Trajetória onde se impõe, derivada de tal desconforto, a vontade de investigar o que se esconde por detrás do que é já sabido. O desejo, transposto em mídias diversas, de conhecer de novo o que é assentado costume.
Não é parte desse ânimo de experimentação, contudo, qualquer empenho em colocar-se em posição de privilégio frente ao outro. Ao mesmo tempo em que afirma uma perspectiva que é a sua, busca, em seus trabalhos, anular o que lhe é singular, fazendo de seu corpo instrumento de inquirição de um espaço comum também aos demais. São elementos operativos dessa estratégia a distância e as angulações em que se faz fotografar ou filmar, as quais mostram tanto quanto escondem os seus traços fisionômicos, e as roupas simples com que realiza os trabalhos, que não promovem distinção imediata entre aquilo que faz e comuns atos cotidianos.
A crítica aos limites entre pares de supostos antípodas também se manifesta na indistinção conceitual entre as séries fotográficas e os vídeos que Waléria Américo produz. Por serem apresentadas como fragmentos de uma ação, imagens fixas e encadeadas parecem supor a temporalidade contínua de um vídeo que, ainda que não feito, pode ser imaginado. De modo inverso, cada vídeo efetivamente realizado pode ser apreendido, em tese, por meio da seleção de alguns poucos dos fotogramas que o constituem. O trabalho da artista depende menos de características próprias da fotografia ou do vídeo (além de outros meios que eventualmente utiliza) e mais de sua disposição em empregá-los em sua estratégia de conhecer, sempre um pouco mais, a natureza do espaço onde ela e outros vivem.
Estratégia que tende a despregar-se de referentes reconhecíveis e a fundar-se na captura de imagens que descrevem, em potência, uma parte qualquer do mundo, convertendo-se em método investigativo. No vídeo Contenção, a artista percorre um ambiente feito de pedras que ocupa todo o campo filmado e do qual pouco se pode saber, portanto, de sua extensão, altura ou origem. Caminha em linhas retas, sobe e desce os níveis distintos de que a construção é feita, como se a negociar a sua permanência nesse lugar, ou como se a intuir algo que não sabia antes de estar ali.
É no trabalho Mirar, porém, que a vontade de abstrair-se de um espaço específico como foco de investigação se alia ao descentramento da perspectiva através da qual Waléria Américo apresenta os resultados, sempre provisórios, de sua exploração do território por onde se desloca e assim o cria. Atando micro-câmeras a partes diversas de seu corpo, percorre lugares variados da cidade (ruas, telhados, muros) e deixa seus movimentos os registrarem em múltiplos pedaços. Em vez do olhar distanciado, inequívoco e quase estático com que captura suas investigações passadas, agora são perspectivas fragmentadas desde regiões distintas do próprio corpo que são gravadas em imagens e compartilhadas com o outro pela artista. Oferta, assim, uma visada do mundo que nenhum olho registra e que é mais afeita, contudo, ao espaço social e afetivo partido onde hoje se vive.
Como resultado do direcionamento que a sua pesquisa recente assume, Waléria Américo abre mão, por vezes, até mesmo das imagens relativas aos caminhos que trilha na cidade, exibindo somente os seus fraturados resíduos sonoros, em apelo implícito à imaginação de quem os escuta. Divide, assim, novamente e por meios diferentes dos antes usados, a criação de sentidos para os seus trabalhos, ainda que contingentes e provisórios. Sentidos contextuais e fugidios que ela também oferece, como possibilidade, na forma de objetos que inventa e para os quais não há finalidade certa, como um trampolim em que não se pode subir e de onde se salta para o nada (Ilusão, ou minutos antes), ou uma cadeira alta o bastante para pôr o outro em dúvida sobre sua serventia (Suspensão). Promove, por meios vários, o desmonte das normas vigentes de orientação no espaço. Apenas para propor outras, que zela para que nunca se deixem fixar.
Moacir dos Anjos
Sobre Waléria Américo
Nasceu em Fortaleza, 1979, onde vive e trabalha. Graduada em Artes Plásticas, suas experimentações (vídeos, fotografias e intervenções) possuem uma poética que se volta para corpo, entorno, indivíduo e cidade.
Em 2008, participou da ARCO, em Madri (Espanha), e do Circuito Intensivo, no Alpendre (Fortaleza).
Em 2007, participou do Panorama da Arte Brasileira, MAM (São Paulo); da Verbo, na Galeria Vermelho (São Paulo), da exposição Quase Nordeste, na Galeria Oeste (São Paulo) e do Salão de Abril (Fortaleza).
Em 2005/2006 integrou os programas da Bolsa de Arte do Museu de Arte da Pampulha (Belo Horizonte), e do Rumos Visuais, do Instituto Itaú Cultural (São Paulo).
Outras exposições de destaque:
2006 - Centrocidades, no Centro Cultural BNB (Fortaleza); De Um lugar a Outro, Museu de Arte Contemporânea do Ceará (Fortaleza);
2005 - Salão Arte Pará, Museu do Estado do Pará (Belém);
2004 - Salão de Arte Contemporânea de Sobral (Sobral); Experimental, Museu de Arte Contemporânea do Ceará (Fortaleza).
2003 - I Bienal Ceará América, Museu de Arte Contemporânea do Ceará (Fortaleza).
2002 - Ainda Gravura, Museu de Arte Contemporânea do Ceará (Fortaleza).
Sobre Moacir dos Anjos
Economista pela Universidade Federal de Pernambuco (1984), com mestrado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (1990) e doutorado em Economia - University College London (1994), Moacir dos Anjos é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco desde 1990 e foi diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães entre 2001 e 2006. Tem experiência na área de Artes Visuais, com ênfase em Crítica da Arte, atuando principalmente nos seguintes temas: arte brasileira, artes plásticas, cultura contemporânea, globalização e políticas públicas.
Atuações de destaque:
Membro do Conselho Editorial da Editora Massangana da Fundação Joaquim Nabuco (12/2004 a 12/2005);
Membro do Conselho Curador do Museu de Arte Contemporânea do Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar Fortaleza (01/2005 a 12/2006);
Membro do Conselho Científico do projeto O Estado do Mundo, Fundação Calouste Gulbenkian Lisboa (10/2005 a 12/2007);
Membro do Comitê Assessor da Cisneros Fontanals Arts Foundation Miami (03/2006 a 02 de 2008);
Membro do Conselho Curador da Galeria Marcantonio Vilaça do Instituto Cultural Banco Real Recife (01/2006 a 12/2007);
Membro do Conselho Curatorial do The Projects Section ARCO´07, IFEMA Madri (07/2006 a 02/2007);
Membro do Conselho Curatorial do Projeto ARCO 2008, do Ministério da Cultura (06/2006 a 02/2008).
